A economia da Transformação - Os spas estão liderando uma nova era. Você está pronto?
- Fernanda Guarnieri

- 5 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Desde o início dos anos 2000, quando B. Joseph Pine II e James H. Gilmore apresentaram ao mundo o conceito da Economia da Experiência, empresas de diferentes setores passaram a redefinir como criam e entregam valor. A premissa era poderosa e simples:
“Se você não cria uma memória, você não cria uma experiência.”
Naquele momento, esse raciocínio representava uma verdadeira mudança de paradigma. Bens e serviços, antes os pilares do valor econômico, já não eram suficientes para capturar as aspirações de um consumidor cada vez mais faminto por imersão, autenticidade e conexão.
Os spas foram um dos primeiros setores a incorporar essa lógica. Sua essência, com imersão multissensorial, rituais de cuidado e ambientes cuidadosamente desenhados para o bem-estar, alinhava-se de forma natural à demanda por experiências. Tornaram-se templos da hospitalidade e do bem-estar, conduzindo clientes não apenas por tratamentos, mas por jornadas orquestradas para encantar.
No entanto, como os próprios Pine e Gilmore já previam, a experiência, por mais impactante que fosse, cedo ou tarde atingiria seu limite como motor de encantamento e deixaria de sustentar o papel de estratégia máxima de valor.
A progressão do valor econômico
O modelo de consumo descrito por Pine e Gilmore ao longo da história apresenta uma clara progressão: das commodities aos bens, dos bens aos serviços e, destes, às experiências. Cada etapa representa um salto em diferenciação e em valor econômico, respondendo a dimensões cada vez mais profundas das necessidades humanas.
Durante muito tempo acreditou-se que esse percurso se encerrava no auge da experiência — afinal, proporcionar momentos memoráveis parecia ser a fórmula definitiva para transformar clientes em verdadeiros fãs. Mas em 2011, com a publicação da edição revisada de The Experience Economy, uma nova revelação sacudiu esse entendimento. Os autores destacavam que a experiência não era o ponto final da curva de valor, mas apenas um meio, um trampolim para algo maior.
Essa hipótese foi se confirmando nos anos seguintes e ganhou força definitiva a partir de 2019, quando Pine passou a explicitar em palestras e artigos o próximo passo: a mentalidade do consumidor havia evoluído. Já não bastava viver experiências marcantes; o desejo agora era por transformação. Esse deslocamento redefine o papel das empresas em todos os setores — e coloca os spas em posição de destaque, justamente por já atuarem como curadores de vivências profundamente pessoais e transformadoras.
A transformação impactando o consumo
Estamos entrando em um estágio em que o valor econômico não se mede mais apenas pela intensidade de uma experiência, mas pela capacidade de gerar impacto duradouro na vida do indivíduo. É isso que Pine e Gilmore denominam Economia da Transformação.
Nesse novo contexto, as experiências não desaparecem. Elas permanecem importantes, mas deixam de ser o destino final. Tornam-se o veículo por onde a transformação acontece. O que muda é a régua de valor: já não basta perguntar “O que você sentiu?”, pois o consumidor contemporâneo quer poder responder “Quem me tornei depois dessa vivência?”.
Esse consumidor é mais consciente, informado e seletivo. Ele não se satisfaz com prazeres passageiros ou com a estética superficial de um serviço; deseja evoluir como pessoa. Busca ambientes, marcas e serviços que ofereçam ferramentas para repensar hábitos, melhorar sua saúde, fortalecer sua mente e expandir sua visão de mundo.
É um público que valoriza tanto os dados quanto os rituais; que confia na ciência, mas também busca significado cultural e espiritual. Seu desejo é unir alta performance e bem-estar, produtividade e propósito, estética e autenticidade. Para ele, o luxo não é ostentação: é longevidade, autoconhecimento e transformação pessoal.
Portanto, a Economia da Transformação inaugura uma nova relação entre empresas e clientes. O consumidor não compra apenas um produto ou experiência, mas um processo de mudança — uma jornada que deve ser acompanhada, medida e integrada em sua vida real.
O luxo redefinindo valores
É nesse cenário que o luxo transformacional emerge como resposta natural. Segundo um relatório recente da The Future Laboratory, longevidade e bem-estar são agora o coração da proposta de valor das marcas de prestígio. O luxo já não é definido apenas por status ou estética, mas pela capacidade de promover vitalidade, saúde integral e evolução pessoal. Em outras palavras, o luxo se reposiciona como um parceiro de vida.
Não surpreende, portanto, que marcas como Dior, Louis Vuitton ou La Mer tenham ampliado seu território de atuação para criar ecossistemas de transformação. Spas permanentes no topo de flagships, suítes de luz circadiana para regular o sono, experiências móveis em iates e trens de luxo, retiros privados para clientes VIP — tudo é desenhado para atender a um consumidor que não busca apenas usufruir, mas transformar-se em alguém melhor.
Esse novo eixo se ancora em pilares claros: sustentabilidade regenerativa, capital intelectual como prestígio, wellness holístico, autenticidade cultural e quiet luxury. Todos convergem para o mesmo destino: o eixo aspiracional do consumo mudou. Não se trata mais de ter, ou apenas de sentir. O verdadeiro desejo é tornar-se.
Aqui, wellness, hospitalidade e beleza se encontram como territórios estratégicos. Hotéis de alto padrão transformam-se em laboratórios de longevidade; clínicas de estética passam a unir ciência e espiritualidade; marcas de moda criam espaços imersivos onde cultura e saúde se entrelaçam. O que emerge desse movimento é claro: o luxo do futuro não estará no objeto raro, mas na mudança rara e pessoal que ele proporciona.
Ampliando o mindset
É justamente neste ponto que os spas precisam repensar seu papel. Durante anos, falar em “experiência” foi diferencial — mas em pouco tempo essa narrativa soará ultrapassada. A nova régua de valor já não é mais o quão memorável foi a vivência, mas quais mudanças concretas ela gerou na vida do cliente.
Se até ontem bastava encantar os sentidos, amanhã isso não será suficiente. Os consumidores não querem mais apenas relaxar por algumas horas; eles querem sair transformados, com impacto real sobre sua saúde, seus hábitos e sua forma de se relacionar consigo mesmos. É aqui que os spas têm a oportunidade de sair na frente: transformando-se de refúgios de luxo em plataformas vivas de evolução humana.
Esse setor já tem na sua essência as ferramentas necessárias: terapias do sono, programas de mindfulness, protocolos integrativos de bem-estar — práticas que, quando bem estruturadas, vão além do sensorial e promovem mudanças perceptíveis e duradouras. O desafio agora é reposicionar a entrega: não mais apenas proporcionar experiências memoráveis, mas orquestrar processos de transformação.
A Economia da Transformação não é uma tendência distante; é um reflexo direto das novas aspirações humanas. E só estará preparado quem começar a se mover já. Esperar para agir na última hora significa correr atrás de um mercado já consolidado por líderes visionários.
A próxima era já começou
B. Joseph Pine II já confirmou que seu próximo livro, The Transformation Economy, será lançado em 2026. Será, sem dúvida, uma obra de referência global. Mas há um ponto crucial: a próxima era já começou. E nós, que atuamos no universo do bem-estar e da hospitalidade, não podemos esperar pela publicação para nos mover.
É agora que precisamos trazer essa discussão à tona, provocar reflexões e, principalmente, tomar decisões estratégicas que reposicionem os spas como protagonistas dessa transformação. Esperar até que o mercado inteiro esteja falando do assunto pode ser tarde demais para negócios vanguardistas.
A verdadeira vantagem competitiva estará nas marcas e nos líderes que anteciparem essa virada, ajustando hoje suas narrativas, seus serviços e seus processos para entregar não apenas experiências memoráveis, mas transformações reais e mensuráveis.
Afinal, se a próxima era do consumo já desponta diante dos nossos olhos, a pior estratégia seria cruzar os braços e aguardar 2026. O futuro não espera — e só sairá na frente quem começar a agir desde já.
A questão é: você vai liderar essa transformação — ou vai apenas observá-la de fora?


